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Quarentena entre canções e reflexões

Hoje li um texto sobre a relação do brasileiro com a política e os políticos, coincidentemente enquanto ouvia o saudoso Bezerra da Silva, cantor, compositor, violonista, percussionista, que afirmava ao fundo que “para tirar… meu Brasil dessa baderna, só quando o morcego doar sangue e o saci cruzar as pernas” ao interpretar a canção de Cosme Diniz e Rosemberg.

A coincidência logo chamou minha atenção e minha reflexão se voltou para as muitas verdades sobre o nosso país trazida pelas canções entoadas pelo sambista, que se fez um importante porta voz da visão e do cotidiano de uma parcela muito representativa da população brasileira.

Fui logo pra internet conferir os detalhes sobre a composição, que data de 1991, período no qual se discutia a deposição do primeiro presidente eleito após a fase ditatorial. Ficou fácil compreender a decepção popular trazida pela letra.

A esta altura eu já me via avaliando o cabimento, a adequação da canção para os dias atuais mas, sobretudo, para a minha forma de ver o mundo.

Estaríamos nós condenados a esse pessimismo de entender que a crise política e institucional experimentada em nosso país seria tão instintiva e necessária quanto a dieta do mamífero hematófago? Não creio.

Não é de hoje que se diz que crise e oportunidade caminham lado a lado. E nós temos nesse momento de crise a oportunidade de buscar alternativas, de repensar o modelo de país e de lideranças que temos e tentarmos nos preparar para quando a dita “normalidade” retornar. Um novo ciclo em que a nossa gente, o nosso país, podem se renovar, se reinventar. Mas esse exercício está muito ligado também à capacidade e às escolhas daqueles que definem o destino da nação.

Acredito que se esse sentimento de descrença se mantém relevante, precisamos nos esforçar mais em despertar o nosso senso crítico e nossa disposição em contribuir para formar uma geração mais adepta à reflexão que aos ídolos, mais disposta a definir o que são seus valores do que simplesmente empunhar bandeiras, capaz de ouvir, de conhecer e, sobretudo, de reconhecer o outro.

Porque a própria ideia de “terra devastada” não é desinteressada e porque a democracia somente estará finalmente aperfeiçoada quando o cidadão conseguir ser novamente e, de fato, instrumento da transformação que espera.

“Chega de tanta desventura, não foi assim que me contaram” ouvi dizer Bezerra então, mas essa já era outra canção.

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